29 de Novembro de 2041
A semana foi bem. Continuo com os mesmos problemas, não sei que curso prestar o vestibular, quais seriam os próximos passos que eu deveria seguir. Algumas coisas na escola ainda precisam ser arrumadas e, assim, eu e as meninas estamos tentando melhorar. Mas parece que nunca vai mudar mesmo. A gente se mudou há alguns anos e eu ainda sinto saudades de casa. Quer dizer, de onde eu morei.
Encontrei mamãe ontem chorando na cama. Ela estava no celular, desligou e pôs-se em posição fetal. Disse que os negócios não iam bem. Ia faltar dinheiro em casa. Que eu não poderia ir ao dentista e nem que viajaria naquele final de semana. Entendi e abracei ela ali. Ela realmente não parava de chorar. Tirei as coisas da cama, liguei a TV naquele programa que ela gosta e a cobri. Ela disse que me amava e que eu podia ficar com o restinho do café. Perguntei se era vovó. Faz tão pouco tempo que ela morreu, e viveu tão bem. Quando ela foi visitá-la, eu não pude ir. Tinha coisa na escola e tal, não ia dar. O problema é que São Paulo parece muito distante agora. Coisa de outro planeta, outra realidade. Agora imaginar ali a cidade da minha vó, nossa, parece até aquelas coisas de filme. Não os que minha mãe já escreveu, mas aquelas loucuras. ABC é coisa de um planeta mais distante ainda. O interior e a chácarazinha então, nossa. Enfim. Peguei o café e encostei na porta. A vi ali rindo de algumas piadas que tavam passando, em uns 10 minutos ela tirou algumas coisas debaixo do travesseiro. Tinham duas câmeras e alguns álbuns de flores que ela costumava desenhar por cima da capa no plástico transparente que tava lá. Os desenhos da vez eram umas lágrimas. Como a chuva. Lágrimas e olhos tristes. Grandes, expressivos. Em um óculos daqueles Wayferer, quadrados. O estranho é que não lembro de nenhum conhecido de mamãe com aqueles óculos. Vovô não os usava, meu tio também não. Estranho. Muito. Perguntei o que significava, e ela já estava dormindo encolhida. Aí eu abri. Estavam as amigas de infâncias de mamãe. Elas vieram aqui no aniversário dela, ela ficou super feliz, já que eu tive de levar as meninas para o aniversário dela, já que não viria ninguém comemorar o aniversário dela.
Das amigas eu lembrava, agora de outras pessoas, não. Tinham uns meninos nas fotos. Os dois tinham os óculos quadrados, parecia até um contraste de um com outro, um era alto, branquelo e mais cheinho, bem fofinho, o outro era magrelo, baixinho, moreno. Do tamanho de mamãe, eu acho. Esse baixinho ele tinha umas fotos em que pegava na mão da minha mãe, que está muito diferente de agora. Parece outra pessoa. Que ela não me leia, mas era muito mais bonita enquanto menina. Tá escrito atrás das fotos as datas, o ano era 2011, 2012. No outro álbum de fotos, tinham só fotos dela e desse baixinho. Ela nunca me contou dele. Nunca. Tinham fotos de lomo, de outras câmeras também. Tinham umas fotos lindas, parece até que tinham efeito. Algumas estavam manchadas, parece até que ela botou embaixo de alguma goteira. Na página do álbum, ela tinha escrito "me desculpe. Me perdoe. Me ame." e uma foto dos dois se beijando. Na contra capa do álbum, tinha um papel vermelho todo cheio de colagens "não ler". Pena que já tinha visto tudo. Do jeito que mamãe estava, ela parecia estar sofrendo por ele. O problema, é que já faziam mais de 30 anos que isso tinha acontecido. Que essas fotos foram tiradas, pelo menos. Peguei o celular dela e fui ver que horas eram, tinham duas mensagens. Abri o celular, o contato que tinha enviado as mensagens tava salvo como "28/11". Ela mandou algumas mensagens para ele. Dizendo que já se faziam 30 anos de história com ele, algumas outras coisas do tipo "foi tudo ótimo, com você eu fui o melhor que pude, me senti da melhor maneira que poderia me sentir, mas poderia ser melhor. Fazermos melhor." Vou colar aqui o que ele disse. "oi, não queria responder, mas já que foi você quem me ligou, quem me procurou, que mal há nisso? Concordo que poderíamos ter feito melhor. Claro que sim. Acontece que era amor. Foi amor. E esse amor, nos fez amar. Cada dia mais. Ou cada dia menos. O amor nos transformou, lembra? Tudo. Mudou tudo. E quando temos uma relação baseada no amor, e tão somente no amor, não podemos fazer melhor. O amor é o melhor a ser feito. Não tem mais nada além do amor. Não existe nada maior, você sabe disso. E não é em relação à prazeres da vida que eu digo, mas sim, no nosso sentido de viver. Concordo que podia ser melhor. Acontece, que, mesmo depois de 30 anos, eu aqui trabalhando até tarde, você, sabe-se lá onde está e o porquê lembrou de mim, eu acho que o melhor que poderíamos ter feito não era uma coisa mais intensa, ou mais sentimental, ou mais racional. Mas sim, mais duradora. Não precisávamos de qualidade, isso já estava de bom tamanho (ou você vai contra o amor que sentíamos? Acho que não), o que precisávamos mesmo era de mais tempo. Para nós, para o amor, para a relação, para os outros, para a vida. Você há de me perdoar ainda. Assim como eu lhe perdoei meses após o que você fez comigo. Construímos um ao outro juntos. Vidas. Somos todos vidas. E fizemos uma ainda. Bom, acho melhor terminar por aqui. Aposto que você vai dar de "superior" (como se superioridade fosse não responder, fingir que nada aconteceu) e não responder. Caso o faça, bom, só digo uma coisa. Se arrepende mesmo depois de 30 anos, falta mais o que para que você possa sentar, conversar e voltar para o que sempre julgou ser bom?"
Olha, não sei quem é esse cara. Ela o chamou de "nego" uma vez. Não sei se vale a pena procurar mais, sabe. Enfim, eu sei que ela ligou para ele. Consegui puxar a ligação, ela pedia calma e que a tratasse bem. Também pediu para que ele não a julgasse pelo que estava fazendo. Disse que caso estivessem juntos, seriam mais que bodas de prata. Mais de 25 anos juntos. De puro amor e carinho. Chorou muito. Ele pediu para ela se acalmar, pensar no que estava fazendo, que eram pessoas diferentes, que os tempos eram outros. Sempre foram outros e que não seria ele quem deveria reatar algo, perdoar algo ou que estava devendo algo à ela, mas era ela quem devia MUITO para si. Ele estava em aberto à ajuda, à volta e à reconciliação.
Esse cara é demais. Agora, não sei porquê mamãe chora por ele. Não deveria, sabia. Ele só quer o bem dos dois. Mamãe acordou, vi que os olhos dela estavam bem inchados e ver ela sem calça ainda é um negócio bem impressionante, ela tá bem magra.
Ela tá vindo no quarto. Acho melhor deixar quieto. O passado é passado. Ela não deve nem ficar lembrando muito menos eu devo perguntar.
Mas seja lá quem você for, brigada, "nego".
Esse cara é demais. Agora, não sei porquê mamãe chora por ele. Não deveria, sabia. Ele só quer o bem dos dois. Mamãe acordou, vi que os olhos dela estavam bem inchados e ver ela sem calça ainda é um negócio bem impressionante, ela tá bem magra.
Ela tá vindo no quarto. Acho melhor deixar quieto. O passado é passado. Ela não deve nem ficar lembrando muito menos eu devo perguntar.
Mas seja lá quem você for, brigada, "nego".
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